Nunca fui grande adepto do humor britânico. Mas nem sei por que razão, já que ainda vi pouco, mesmo quase nada, desse tipo de programas. Apenas sei que, cada vez que o canal sorteado no zapping de Domingo à noite evidenciava vestígios de comédia originária de terras de sua majestade, a minha face se contorcia instantaneamente, criando uma careta irreflectida, e os meus dedos eram reféns de um reflexo involuntário que me fazia mudar de posto quase de imediato. Nem sei porquê! Talvez fosse uma daquelas manias desenvolvidas durante os anos de acefalia vividos em grande parte da adolescência.
Felizmente, essa nóia – palavra que eu gosto particularmente e que não percebo a razão de não fazer parte da língua portuguesa, pois se o bué entrou por que não nóia (?) – passou-me e, como não podia deixar de ser, foi o Rick Gervais que me abriu as portas do mundo da comédia britânica. E eis que, depois de gargalhar compulsivamente com “Extras”, que dei por mim a descobrir aquela que pode muito bem ser uma das sete maravilhas do mundo, ou pelo menos, uma das sete maravilhas do mundo da comédia televisiva. Falo, pois claro, de “Coupling”.
Steve (Jack Davenport) e Susan (Sarah Alexander) encontram-se num bar e apaixonam-se. Começam uma relação, mas em vez da típica ligação a dois, têm de a partilhar com Jane (Gina Bellman), a completamente alucinada ex-namorada de Steve, Patrick (Ben Miles), o ex-namorado de Susan com queda para as mulheres, Jeff (Richard Coyle), o excêntrico melhor amigo de Steve, e Sally (Kate Isitt), a extravagante melhor amiga de Susan.
“Coupling” pega numa fórmula de sucesso para fazer comédia, o sexo, e aproveita-a ao máximo. Os personagens são extrovertidos, excêntricos e descomplexados. Os textos são reais, ridículos, loucos e completamente divertidos. E, não querendo cair muito em comparações, mas parecendo-me que as mesmas são inevitáveis, “Coupling” é o que “Friends” devia ter sido. Eu adoro “Friends”. É uma das minhas sitcoms favoritas de todos os tempos. Mas… “Coupling” é melhor.
Um dos grandes feitos da série é a forma como grande parte da narrativa dos episódios é construída. Um dos exemplos mais comuns é o seguinte: o casal principal, a Susan e o Steve, vivem uma determinada situação, algo básico vivido entre casais, e o resto do episódio é passado a mostrarem-nos os pontos de vista masculino e feminino do assunto quando eles estão na companhia dos seus amigos. O resultado é soberbo e as gargalhadas são em doses industriais.
E depois temos os personagens. Os fantásticos personagens de onde se destaca Jeff, com todas as suas excentricidades, que consegue criar na sua mente as mais insanas ideias sobre o mundo do sexo, mas que entra em pânico ao falar com mulheres e acaba por dizer as coisas mais disparatadas que lhe ocorrem. Temos ainda a completamente louca Jane, que é capaz de dizer as maiores barbaridades alguma vez ouvidas e ainda consegue escapar com um sorriso, a extravagante Sally, com os seus medos de perder a sua beleza, e o mulherengo Patrick, um cabeça oca com particular queda para o sexo feminino e uma invejável colecção de filmes caseiros. E ainda o casal principal da história, o Steve, com os seus inspirados discursos sobre ser homem e o seu fascínio pelo lesbianismo, e a Susan, uma sexy mulher que consegue quase sempre o que quer.
Em cerca de trinta episódios, “Coupling” consegue ser uma das mais divertidas séries de televisão existentes, até mesmo quando, na última temporada, perde um dos seus mais influentes membros do elenco, Richard Coyle, que decidiu que não queria ficar rotulado como “Jeff” e partiu para abraçar outros projectos. E não admira que a NBC até tenha tentado adaptar a mesma ao mercado americano, apesar de sem sucesso.
Aqui fica uma pequena amostra:





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