[SPOILERS] Quando nos falta a eloquência, podemos sempre contar com as palavras dos que vieram antes de nós. E ao ver este “Parricide”, só uma frase me vem à cabeça: Oh my stars and f**king garters!
Parricídio. O acto de matar o pai ou a mãe. Em sete temporadas, nunca um episódio de “The Shield” teve um título tão ominoso quanto este. Talvez por isso as expectativas sejam grandes. Mas se a direcção da história acaba por ser diferente daquela de que estávamos à espera, não há como deixar de admitir que este é um dos melhores episódios de sempre desta magnífica série.
Depois dos momentos finais de “Bitches Brew”, a promessa de um desfecho trágico para a noite aumenta de intensidade quando vemos Shane (Walton Goggins) a preparar-se para cometer o acto. Mais uma vez, as cenas calmas, íntimas, familiares, com a fotografia da família Vendrell em grande plano e a cena no quarto do pequeno e adoentado Jackson, contrapõem-se com o ambiente pesado que se vive, com Shane a preparar a arma, a planear um álibi com a ajuda da mulher, a certificar-se de que irá cometer o crime perfeito, tal como o fez quando assassinou Lem. Esta justaposição de familiar e desconhecido, de certo e errado, de branco e negro, que se tornou numa das marcas da série, acaba por percorrer todo o episódio, contribuindo para momentos de tensão como há muito não víamos.
Shane prepara-se para cometer um dos seus piores crimes de sempre: matar o seu próprio pai. Não aquele que lhe deu vida, mas aquele que o criou, que o tornou naquilo que hoje conhecemos – prepara-se para assassinar Vic (Michael Chiklis). Mas embora a decisão esteja tomada, como o sabíamos desde “Animal Control”, Shane não deixa de se confrontar com dúvidas, e a angústia que sente por aquilo que tem de fazer acaba por ser a angústia que nos invade também a nós, espectadores.
Desde o início que sabemos que ninguém sai impune desta história. Que não há personagens totalmente boas, nem totalmente más, apenas personagens que escolheram o seu caminho e que, para o bem e para o mal, o terão de percorrer até ao fim. Talvez por isso tenhamos vibrado com os sucessos da Equipa de Intervenção, assistido boquiabertos à forma como conseguia escapar das situações mais complicadas, mesmo perante opositores de peso como Aceveda, Claudette, Dutch e Kavanaugh. E talvez por isso tenhamos, ao longo do episódio, um sentimento de angústia pelo destino das personagens: não queremos ver Vic e Ronnie (David Rees Snell) morrer assim, da mesma forma que também não queremos ver Shane a ser morto pelos amigos.
Sem hesitar, o episódio salta logo para a acção, para o momento dos assassinatos, que acaba de forma algo anti-climática: Ronnie é salvo pela azelhice de Two Man, que não consegue cumprir a sua missão e apenas fere a conquista da noite, e Vic é salvo por um telefonema de Ronnie. Mas quando as balas se calam e a confusão diminui, a tensão aumenta. Como conseguirá Shane salvar a situação? Como conseguirá impedir a captura do atirador e salvar-se a si próprio?
É este o momento de viragem. O momento em que nada voltará a ser o mesmo. Shane bem tenta, corre atrás de tudo e de todos, procura desviar todas as atenções, bloquear a investigação, impedir Two Man de ser capturado. Mas porque esta é também a derradeira história, não há como escapar: Two Man é capturado, e no interrogatório conta finalmente tudo a Dutch (Jay Karnes) e Billings (David Marciano): que foi chantageado por Shane, que foi ele quem encomendou o assassinato de Ronnie, que a culpa está, afinal, bem mais próxima de casa. Este é um momento arrepiante, não só pelas caras incrédulas de todos os que assistem ao desenrolar do interrogatório, mas também porque Shane está ali mesmo ao lado. O fechar de olhos de Shane, quando se apercebe de que Two Man vai quebrar, que vai contar a história toda é, ao mesmo tempo, de resignação e de determinação: agora que tudo está em aberto, resta-lhe fugir, e o último olhar que deita à sala da antiga Equipa de Intervenção, aquela que conhecemos deste o piloto, que palco de tantas cenas fulcrais foi, a sala que representava a essência destes quatro amigos, é também o último olhar que Shane lança à esquadra, antes de fugir para o carro e deixar para sempre aquelas bandas.
A face de Vic, a incredulidade e a raiva que espelha quando se apercebe de que Shane conseguiu, mais uma vez, escapar-lhe, poderia ter sido um arrepiante fechar deste episódio. Um momento que iria ficar para a história e que nos deixaria já em pulgas para o próximo episódio. Mas porque Shawn Ryan sabe que a fórmula mais simples nem sempre é a melhor, reserva-nos ainda largos minutos para o rescaldo desta história.
O corte da acção e a passagem para casa de Corrine (Cathy Cahlin Ryan) é um pouco abrupto. O que queremos ver agora é a reacção de Vic, de Ronnie e da restante esquadra, saber como irão iniciar a sua caça ao homem, saber se a fúria de Vic o irá deixar pensar friamente. Mas o que temos em sua vez é uma cena poderosa entre duas mulheres que se encontram em lados diferentes da cerca ao tentarem apoiar as suas famílias.
Muitos criticam a influência de Mara (Michelle Hicks) na vida da Shane, defendendo que este se começou a afastar de Vic quando se envolveu com ela. Não diria que este é o caso, pelo menos não é possível atribuir-lhe todas as culpas. O que Shane e Mara representam nesta história é almas gémeas, pois parecem estar sintonizados em todos os aspectos. Shane nunca teve problemas em contar tudo a Mara, confidenciar-lhe os seus maiores segredos e os seus maiores crimes; já Corrine, sempre tentou afastar-se desse lado da vida do ex-marido, tentou desculpar-se, não fazer perguntas, fingir que não sabia, algo que funcionou até que Kavanaugh a encostou à parede na quinta temporada e a forçou a admitir aquilo que há muito tentava esconder. E se desde essa altura Corrine tem vindo, pouco a pouco, a reconhecer que Kavanaugh tinha razão, que ignorar um problema não é resolvê-lo, nunca tinha sido confrontada com a verdade de forma tão pura e dura. Em poucos segundos, Mara confirma tudo aquilo que mais assustava Corrine: que Vic é corrupto, violento, um assassino. E que mesmo o divórcio não a conseguirá salvar do poço em que Vic caiu. As verdades de Mara são assustadoras, mas as suas ameaças ainda o são mais: Corrine será a ligação entre os Vendrell e Vic, terá de os avisar de todos os passos que a investigação esteja a percorrer, e ajudá-los assim a fugir. Por mais que queira, Corrine não conseguirá fugir, e nem mesmo a promessa que consegue arrancar a Vic, de que este será o último favor que lhe faz antes de se afastar definitivamente, parece trazer algum consolo. Se começou a temporada mais fraca, nos últimos episódios Corrine tem-se destacado, e é novamente através das suas palavras que conseguimos ouvir uma grande verdade: “You have to pay some kind of price”. Resta saber é se esse preço não poderá vir a ser pago em igual medida por outros.
E quanto a Vic? O que irá ser dele agora que está no final da linha? Como temos visto, Vic não é homem de deixar histórias a meio, e mesmo com todos os dilemas causados por Shane, nunca se esquece do seu verdadeiro papel nas ruas. É por isso que, mesmo num episódio já de si tão recheado de emoções, não se deixam de lado as situações mais banais. Neste caso, a continuação da luta contra Pezuela, que desta feita mete ao barulho um padre de uma paróquia do distrito (interpretado pelo muito versátil Silas Weir Mitchell), e as ligações ao ICE. A uma semana de perder o distintivo, Vic procura, com a ajuda de Olivia (Laurie Holden), arranjar influências para poder prosseguir o seu trabalho. Fica a dúvida se Vic o irá conseguir agora que tomou a decisão mais difícil de sempre e abandonou de vez a polícia. A cena da revelação de Shane foi impressionante, sem dúvida, mas o momento em que Vic finalmente entrega o seu distintivo, o símbolo do seu trabalho, do seu poder, do seu domínio das ruas e da esquadra – o símbolo, também, que desde o início deu o mote a esta série –, é indescritível, e será muito difícil de superar. Trocar o emprego pela perseguição a Shane poderá não ser a escolha mais racional, mas para Vic, o homem que sempre pôs os seus irmãos de armas à frente de tudo e de todos, que sofreu com as suas mortes e as suas traições, é a única escolha possível.
“The Shield” está a chegar ao fim, e com o círculo a fechar-se lentamente, a discussão final entre Vic e Claudette (CCH Pounder) relembra-nos a discussão com Aceveda (Benito Martinez), há sete anos atrás, no final do episódio piloto – uma discussão de que Vic saiu, tal como desta vez, vitorioso. Mas a vitória de uma batalha não implica que a guerra esteja ganha, e até ao final, Claudette não será mulher de deixar Vic fazer o que quer. Veremos o que “Moving Day” nos irá trazer.
Chegados ao final (e a quem conseguiu terminar de ler este testamento, os meus parabéns), resta apenas uma questão. Porquê, poderão então perguntar, leva este episódio apenas um 97 na escala de classificação do TVDependente, se mereceu tantos elogios? É simples: por muito bom que este episódio tenha sido, por muito que tenha elevado a qualidade da temporada… é apenas o oitavo episódio. Até ao desfecho final, no dia 25 de Novembro, faltam ainda cinco episódios recheados de emoções. Cinco episódios que prometem solidificar a posição desta série no panteão das melhores séries policiais de sempre. Cinco episódios que irão, certamente, receber um perfeito (e muito merecido) 100.

















October 27th, 2008 at 21:35
Eu seria mais generoso e dava-lhe um 99, mas como não há décimas nas estrelas, leva 10 (estrelas).
Responder
October 27th, 2008 at 21:44
Eu sei… eu debati-me imenso com a nota a dar à série. Aliás, até fui bastante mázinha nas pontuações até aqui. Mas temos de ver o contexto, e The Shield elevou tanto a fasquia, que é difícil não ser exigente. Por muito que quisesse, a tantos episódios do final não conseguia dar melhor. Foi um episódio excelente, mas os dois episódios finais da 5a temporada mesmo assim estão acima deste, para mim.
Mas se a série continuar assim… vai ser bonito dar notas aos restantes episódios!
Responder
October 27th, 2008 at 23:15
Água na boca. É o que é. Já tinha visto a pontuação no tv.ign.com, com aquele 10 a constituir um chamariz demasiado hipnotizante para se fugir da pergunta que levanta: “Nota máxima? Pode um episódio de uma série ser assim? Tão perfeito?”.
Aguardava por isso pela tua habitual crónica. E a corroboração que fazes levam-me a pensar que a vida é mesmo bela. É que vou a meio da 5ª temporada, devorando diariamente 1 a 2 episódios, com uma fidelidade quase religiosa. Ansiando pelo momento em que me possa sentar, e pensar. “É hoje, carago. É hoje que vou ver o nota 10″!
Responder
syrin Reply:
October 27th, 2008 at 23:31
“Of Mice and Lem”; “Postpartum”
Não tens de esperar muito, então.
O que estás a achar da season 5? Espectacular, não achas?
Responder
Paulo Pereira Reply:
October 28th, 2008 at 20:19
Syrin,
Só digo que bendita a hora que resolvi começar a ver do The Shield. Viciante. Arrasadora. Qualitativamente do melhor. Com personagens densas. Sem maniqueismos. E sim, se isto ainda não te elucidou, estou a ADORAR a 5ª temporada…
Responder
October 28th, 2008 at 0:12
excelente crónica! parabéns!
eu bem dizia que os primeiros episódios estavam a construir um final de temporada alucinante! a série não merece nada menos!
Responder
October 28th, 2008 at 14:23
E já há quem tenha visto o fim! Também queria!
Shawn Ryan screens ‘The Shield’ finale!
The screening lights come up.
The room is silent.
Somebody says “wow.”
FX just screened the final two episodes of “The Shield” for a small group of LA reporters. The network is not sending out screeners to critics. The final episodes are riveting and shocking.
Responder
syrin Reply:
October 28th, 2008 at 14:27
Bastards!
Por acaso já tinha lido isso no blog do Sepinwall, e fiquei a babar pelo final. :s
ZB, algo me diz que vais ter de aumentar a tabela de classificação para The Shield. Quero ter a oportunidade de dar um 200 ao final da série!
Responder
October 28th, 2008 at 18:34
Dei 10.
Responder
November 17th, 2008 at 4:17
Dava 10, que episódio perfeito..
Excelente crítica também, para não variar..
Responder
April 12th, 2010 at 15:25
Excelente crítica!
Eu diria mesmo que foste pouco generosa com a nota. Eu teria dado mesmo 9.9 ou 10.
Foi dos melhores episódios! E a Mara… OMG, ela nesta season 07 está divinal. Ela é a alma gémea do Shane.
Se a Corinne tivesse sido uma Mara para o Vic, onde teria ido parar o Vic?
Já te disse que adorei a série? E que chorei baba e ranho no último episódio?
BSG é a seguir… recomeçando outra vez da mini-série.
Responder