[SPOILERS] A imagem promocional mostrava um anjo caído. Deitado, com as cicatrizes vermelhas a rasgarem-lhe as costas. De pé, bem vestida, estava a dupla de cirurgiões a olhar para tão bizarro cenário. E nós estáticos, sem conseguirmos respirar outra coisa que não aquela bela figura. Era assim que, genialmente, nos vendiam a quinta temporada de “Nip/Tuck”. O consultório passava para a cidade dos anjos com o objectivo de mudar de ares e de clientela. Era realmente uma aposta necessária para uma série já um pouco presa aos mesmos mecanismos e com evidentes sinais de cansaço.
Em Los Angeles mantinha-se a estrutura do caso semanal, do aquário e do “tell me what you don´t like about yourself”. O que mudava era o cenário e o sumo das bizarrias, agora elevadas ao extremo do espectáculo. Era a série a ridicularizar o universo Hollywoodesco, o plástico a encaixar na cidade mãe, quase como se tivesse encontrado o seu berço. Este olhar irónico sobre si mesma resultou na perfeição nos episódios iniciais, nos momentos em que Sean (Dylan Walsh) se torna estrela de televisão ou em que Christian (Julian McMahon) se enrola com duas Marylin Monroe. Até as personagens novas aparentavam ter os requisitos mínimos para este universo. Parecia que estava encontrada a frescura necessária para a série caminhar.
Mas aqui, mais do que em qualquer outro sítio, o que parece nem sempre é, e depois dos primeiros episódios fulgurantes o produto descarrilou. A linha que separava o real do fantasioso foi transporta e o equilíbrio foi desfeito. “Nip/Tuck” sempre conseguiu apresentar o que de mais esquisito se faz no nosso mundo, mas nunca deixou de ser nosso, nunca perdeu o sentido do palpável e verosímil. Até este ponto. Momento em que as caricaturas engoliram as personagens e o que era excêntrico passou a ser ridículo. A narrativa entrou num loop saturante e descabido: damos por nós a ver Sean a querer voltar para Julia (Joely Richardson) (pela trigésima vez), a ver protagonistas quase a morrer (pela quadragésima vez), a ver as mesmas cenas de sexo, os mesmos problemas, as mesmas frustrações, outra e outra vez. Repetindo as mesmas caras até deixarmos de acreditar.
Sem uma linha condutora forte as personagens novas ou se mostraram cinzentas – como a irritante Collen (Sharon Gless) ou o insuportável indiano Raj Paresh (Adhir Kalyan) – ou, se tinham alguma cor – como Teddy (Katee Sackhoff) – acabaram por perdê-la. Os acontecimentos foram conduzidos da maneira mais previsível possível, sem rumo nem consequência, guardando para o final surpresas inseridas à martelada e deixando em aberto um futuro sem o mínimo de interesse.
Evitando a divisão utilizada – esta temporada foi partida em duas partes – diria que se delimita melhor este quinto tomo se separarmos a primeira meia dúzia de episódios e tudo o resto. A fluidez que tão bem se entranhava deu lugar à fragmentação vazia de ideias. No fim desligamos a televisão saudosos de um tempo que já não existe, de uma série que já não é a nossa.

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Detestei esta temporada :arghh: Só vi a primeira parte e pelas criticas da 2ªparte nem me atrevo a vê-la…
Estragou completamente a série…
Como foram as audiências desta temporada? Pela menos da 2ªparte devem ter sido muito más…
Ainda bem que so me fiquei pela compra dos DVDs da primeira e segunda temporada, agora posso fingir que so isso existiu.
“Momento em que as caricaturas engoliram as personagens” :clapping:
Não podia concordar mais!
De facto… as cicatrizes de Nip/Tuck deixaram de ser só as que eram maquilhadas nos pacientes e alastraram às personagens, aos argumentos e ao núcleo da história.
Utilizaste um termo que eu tinha notado na série mas a que ainda não tinha sido capaz de dar um nome: falta de fluídez e fragmentação de idéias. é isso mesmo! A esta temporada não teve um fio condutor até ao fim… perdeu-se com o estúpido final que deram à Colleen e à Eden, no fim da 1ª parte/início da 2ª.
Sinceramente achei-as bastante boas como vilãs, com um enorme potencial que não foi explorado: a Colleen matou o agente, esfaqueou o Sean e morreu (boring… podiam ter levado a sua obsessão, os seus esquemas e mentiras muito mais longe); a Eden seduziu o Sean, tentou matar a Júlia e vai ganhar milhões para indústria porno, saindo impunemente do crime que cometeu (muito mal explicada a história de ela ter falhado com um tiro directo, à queima-roupa… e de ter metido as culpas para cima da mãe… já para não falar que no meio de tal cena nem um polícia ou investigador entrou, como no caso do Carver).
Enfim, aquilo que apimentava Nip/Tuck, além dos dois cirurgiões plásticos e dos casos que eles tratavam e cirurgias, era um bom antagonista e uma boa dose de mistério. Infelizmente, nesta quinta temporada as vilãs foram-se embora com metade da história por contar, e mistério não houve nenhum.
Espero sinceramente que a sexta temporada apresente melhorias significativas, porque Nip/Tuck em Miami era muito melhor!
Gosto de Nip/Tuck mas perdi-me um pouco nesta temporada…
PS: Desculpem o off topic mas preciso de desabafar. Não sei se alguem aqui costumava ver o Kyle XY. Era um dos meus guilty pleasures. A série foi cancelada ao 10º episódio da terceira temporada. Imaginem o fim da série Veronica Mars, multipliquem por 10 e é assim o final de Kyle XY, ou ainda pior, imaginem que Lost acabava neste momento. Basicamente foi isso que aconteceu.
Eu aceito que as séries ao não atingirem os objectivos que os canais pretendem sejam canceladas mas não posso aceitar que elas acabem sem um fim digno. É uma falta de respeito para com o espectador que não tem explicação. E o incrivel é q cada vez mais isto acontece, cada vez mais as séries acabam sem um fim coerente, explicativo, sem um fim. Ok, vamos cancelar a série, têm dois episódios para concluir a história. Custa muito? Ou será que o espectador fiel, por não pertencer a um grupo de 10 milhões, não merece essa consideração?
Estou danado. É uma pouca vergonha, uma falta de respeito brutal. Inqualificável.
Oh Pedro deves ser novo pelo mundo das series, sao poucas as que teem algum tipo de conclusao, o objectivo e aproveitar a viagem.
Não é uma questão de ser novo ou não. Ultimamente tem sido uma praga este tipo de fim nas séries. Séries q assentam em conspirações, em tramas, em grandes mistérios, não faz sentido nenhum acabarem sem uma conclusão. E nestes ultimos anos tem sido uma data de séries q têm tido fins abruptos cujas perguntas nunca são respondidas..
Pedro, a questão central aqui é que isto é um negócio. Se não há quem veja as séries, não há publicidade. Se não há publicidade, não há ordenados. Se não há ordenados, não há comida! (lol)
Como isto anda, em que os americanos cada vez mais preferem séries com episódios fechados, estilo CSI, em detrimento de séries cuja história é continua, acho que até é de ficar aliviado por muitas outras séries que gostamos ainda não terem seguido o mesmo caminho do Kyle XY.
Mas eu percebo a tua frustração. A questão é que, tal como o Eduardo diz, já criei alguns anticorpos e já não me chateio tanto. Aliás, até tenho estado a ver algumas séries antigas que foram canceladas a meio e não têm final apropriado.
Quanto a Nip/Tuck, eu deixei de ver durante a primeira fase desta temporada porque já não tinha pachorra para continuar a ver, pois tinham tornado uma das séries mais irreverentes dos últimos anos numa salganhada de freaks. Eu gosto de comida bem condimentada com sal, mas não gosto de comida salgada, se é que me percebem…