Caprica: 1×02 – Rebirth (SyFy)

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[SPOILERS] “Are you alive?”. Se há frase que irá, para sempre, ficar guardada na nossa memória, é a deixa inicial da saudosa Six na estreia de “Battlestar Galactica”, uma frase tão singela quanto poderosa, que conseguiu captar toda a essência dessa grande série. Talvez por isso seja interessante verificar que, sete anos depois, a prequela de “Battlestar Galactica” se debruça exactamente sobre essa questão tão fundamental: o que significa ser humano.

Para todos os que têm aqui a sua estreia neste universo, umas pequenas notas introdutórias: sim, “Battlestar Galactica”, é uma grande série com uma história interessante, personagens complexas, episódios marcantes, efeitos especiais brilhantes e uma banda sonora irrepreensível. Mas, mais do que isso, é uma série que teve a coragem de abordar assuntos complexos sem qualquer pudor, que tematiza a guerra, a política, o terrorismo e a religião, obrigando-nos a reconhecer paralelos que, muitas vezes, nos recusamos a aceitar. É uma série onde a mitologia e a religião se encontram em campos opostos da batalha, contribuindo não só para lançar a discussão sobre aquilo em que acreditamos mas também para criar um universo rico com muitas áreas ainda por explorar. E é aqui mesmo que se insere “Caprica”.

Quem viu “Battlestar Galactica” tem, certamente, vários problemas em aceitar esta prequela, não pela história em si, que parece interessante, mas pelo simples facto de que a cronologia não funciona – seja a nível mais próximo, com o curto espaço de tempo indicado entre a construção do primeiro cylon e a queda das colónias, ou mais distante, graças às explicações dadas em “No Exit” e nos episódios seguintes da temporada final de BSG. Torna-se, desta forma, quase impossível encarar isto como uma “prequela”. Felizmente, e porque mesmo sendo uma prequela, “Caprica” pretende afirmar-se por si mesma, é possível encarar a série como uma história passada dentro do mesmo universo, não obrigando a ver BSG antes de iniciar a visualização desta nova saga. Ao fazê-lo, dá-nos não só a oportunidade de explorar esse universo, as culturas que na série mãe apenas foram mencionadas brevemente, mas também voltar a reflectir sobre as questões religiosas que marcaram toda a saga.

Assim, e porque mesmo o desapontamento pelo final controverso de “Battlestar Galactica” se mantém, quase um ano depois, as críticas a “Caprica” poucas referências irão fazer à série que lhe deu origem, apostando em encarar esta como uma nova história num universo do qual já temos algumas pistas.

Posto isto, passemos então para o episódio em si, o segundo (ou primeiro, ou terceiro, consoante a vossa opinião), que se situa pouco tempo depois do episódio-piloto, já analisado pelo ZB.

Depois de nos serem apresentadas as personagens, de vermos a tragédia que ceifou várias vidas e que afectou duas famílias em particular – os Greystone e os Adama -, “Rebirth” acaba por não ter um impacto tão positivo quanto o do episódio anterior. Sim, o esclarecer de algumas dúvidas, nomeadamente a principal questão – a sobrevivência do avatar de Zoe (Alessandra Torresanni) dentro do corpo do cylon criado pelo pai – foi interessante, mesmo se se tenha caminhado numa direcção inesperada. Mesmo sabendo que a actriz era peça essencial no elenco, o facto de termos, ao longo do episódio, não só a sua voz mas também de, em algumas cenas, assistirmos à mudança entre cylon e Zoe, entre robô e humano, foi inesperada, acabando por causar alguma estranheza inicial. Mais do que uma técnica artística interessante (e, temos de admitir, não é muito comum termos estas mudanças tão extremas), é preciso vender bem o produto, conseguir convencer os espectadores que estamos mesmo perante uma rapariga-robô, que o corpo cibernético e a consciência artificial são uma e a mesma entidade. Não podendo dizer que fiquei totalmente convencida, não desgostei das cenas, especialmente nas interacções do cylon-Zoe com a sua melhor amiga Lacy (Magda Apanowicz), que nos deram alguns vislumbres da adolescente que desapareceu naquela explosão. Se este recurso artístico irá convencer ao longo dos restantes episódios, é algo que fica ainda por esclarecer.

Mais interessante, no entanto, do que este dilema de Zoe e do seu avatar, dos cylons e do início do fim para o povo das Doze Colónias, são os aspectos sociológicos e culturais apresentados pela história, todo um mundo que se construiu de propósito para esta história e que começa aqui a ganhar forma. Da abertura do jogo de Pyramid, que deu mesmo oportunidade a Bear McCreary de compor um hino nacional, ao passeio por Little Tauron com o pequeno Willie Adama (Sina Najafi) acompanhado pelo seu tio Sam (Sasha Roiz), das maravilhas tecnológicas dos cidadãos de Caprica ao peculiar “grupo familiar” da Irmã Clarice Willow (Polly Walker) e dos Soldiers Of The One, esta mistura de género e de épocas, de futurista e de retro, de mitologia e religião é, sem dúvida, um dos grandes trunfos da série, e aquele que, esperemos, nunca deixe de ganhar destaque. Se o desenvolvimento da questão dos cylons e da importância que isso tem não só para o futuro (ou falta dele) dos habitantes e de Daniel Greystone (Eric Stoltz) em particular são interessantes mas, graças a problemas de continuidade, impossíveis, são os dramas familiares que mais nos prendem. O desespero de Amanda Greystone (Paula Malcolmson) pela morte de uma filha que nunca chegou a conhecer verdadeiramente, uma filha que tinha uma outra vida totalmente separada onde ela nunca se iria conseguir inserir, não conseguem deixar de nos tocar, fazendo com que a repentina revelação pública do papel de Zoe no atentado não pareça assim tão estranha quanto seria se viesse de outra pessoa qualquer. Também o desespero de Joseph Adama (Esai Morales), menos visível neste episódio mas sempre em pano de fundo, agora exacerbado pelo facto da consciência artificial da sua filha estar irreversivelmente presa, é impossível de esquecer e deixa a porta aberta para confrontos com a família Greystone.

Em suma: “Caprica” não é “Battlestar Galactica”. Nem nós queríamos que o fosse. Pode não ter convencido todos os que já lhe deram uma oportunidade, nem mesmo os grandes fãs de BSG, como eu. Pode, de certa forma, estar um pouco limitada pela história que lhe segue. Mas não deixa de ser interessante e, sem dúvida, uma série para acompanhar todas as semanas.

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"Stop boring me and think... It's the new sexy!"

21 Respostas para “Caprica: 1×02 – Rebirth (SyFy)” Subscribe

  1. syrin 05/02/2010 às 16:14 #

    Eu não vou escrever textos tão longos para Caprica quanto escrevia para BSG. Prometo!!!
    Quer dizer… hum… :wereami:

    • Paulo Pereira 05/02/2010 às 16:32 #

      :yeahright:

      Os teus textos de BSG eram uns verdadeiros tratados. Aliás, davam uma bela tese sobre a série:)

      • syrin 05/02/2010 às 16:35 #

        Teses sobre a série? Já existem várias.
        Sobre a religião na série, sobre o impacto que ela teve, sobre o misticismo, sobre a guerra, sobre o terrorismo, sobre filosofia
        Até há cadeiras de filosofia de BSG em algumas universidade britânicas e americanas. ;D

    • musicslave 05/02/2010 às 17:00 #

      podes sempre escrever testamentos, é sempre um prazer ler os textos..
      ainda para mais quando estamos com insónias, é do melhor :mrgreen:

      • syrin 05/02/2010 às 17:08 #

        Por vezes fico na dúvida se me estão a elogiar ou a gozar comigo.
        Oh well… nevermind.

        • musicslave 05/02/2010 às 17:22 #

          estava a brincar e a falar a sério.
          os teus textos são muito bons, não tenhas problemas com a quantidade de linhas…

          • syrin 05/02/2010 às 17:24 #

            Eu? Eu não.
            Quem quer lê, quem não quer, não lê. ;D

            O único problema é que isto dá muito mais trabalho a escrever do que críticas a séries como HIMYM ou SGU, por exemplo.

  2. Paulo Pereira 05/02/2010 às 16:34 #

    Quanto a Caprica, está a ser sacada, para depois ver tudo de enfiada, provavelmente nas férias de Verão. Cada vez me atrai menos andar a penar uma semana para ver um episódio, depois outra, e outra. Assim, fica tudo despachado numa semanita:)

  3. LR 05/02/2010 às 16:45 #

    Estou a gostar da série. Tem muito por onde que pegar ainda. As personagens estão boas e os seus dramas também. Eu já conhecia mais ou menos o universo de BSG, já vi até metade da 2ª temporada e vou continuar a ver brevemente, mas como ainda não vi tudo acredito que possa ter um espírito mais aberto em relação à série.
    Primeiro achei que o genérico inicial está muito bom e revela bem as ideias centrais à volta das personagens e a série está com um visual muito bom.
    Ao contrário de muitos ajustei-me bem à constante alternância entre o robô e Zoe, dá maior intensidade a algumas cenas e não nos deixa esquecer que ela é tão humana quanto as outras pessoas. Gosto da abordagem subtil de alguns temas como a clonagem e “como nós nos vemos a nós próprios, não é como os outros no vêm”.
    Outra personagem que acho interessante é a Sister Clarice com a sua estranha vida paralela monoteísta e poligamica e ainda como recrutadora dos miúdos ao monoteísmo. Os soldiers of the one e alegoria ao terrorismo também está porreira.
    Este episódio desenvolveu-se lentamente, mas dizem que os próximos já têm um passo mais acelerado e pelas promos parece-me que o melhor está para vir, mas uma promo vale o que vale…

    • syrin 05/02/2010 às 16:52 #

      Por acaso eu não sou fã do genérico. Gosto da música, mas o vídeo não me agradou mesmo nada. Comparando com o de BSG, por exemplo, é bem mais fraco. Falta-lhe alguma intensidade, não sei bem explicar.

      • LR 05/02/2010 às 17:09 #

        Acho que são dois tipos de genéricos diferentes e eu gosto dos dois.
        Este para além da música, gosto do simbologismo das coisas e as transições entre os vários sítios também estão porreiras.

  4. Ricardo Fernandes 05/02/2010 às 17:07 #

    Não estou a gostar. Não gostei do piloto e não gostei deste Rebirth. Infelizmente não consegui criar qualquer empatia com as personagens e embora me tenha babado com a ideia do AVATAR (que é genial) a verdade é que não consegui gostar do enredo até agora. Vou ver o 3º e se continua a não me convencer vou deixar para um dia.

    • syrin 05/02/2010 às 17:12 #

      Eu gostei muito do episódio piloto, por acaso.

      Até agora as minhas personagens favoritas são a Amanda e o Sam Adama (o irmão do Joseph, o assassino da máfia). E a Clarice é muito intrigante.

      Não me parece que 3 episódios sejam suficientes para saber se a história se vai desenvolver bem ou não mas olha, gostos não se discutem. Mas ao menos podias esperar e ver a chegada do Spike! ;D

  5. João Fernandes 05/02/2010 às 17:29 #

    Eu estou a gostar do que vi até agora. Ainda é cedo para grandes conclusões mas consegui criar empatia com a história que está a ser contada. Vamos esperar por mais desenvolvimentos, porque com um Mundo tão fértil opções é o que não falta.
    :3:

  6. Ramos 05/02/2010 às 18:13 #

    Também já vi o episódio e confesso que gostei bastante.
    Achei o genérico de abertura bastante giro, principalmente quando entramos pelo olho da Zoe adentro e depois pelo de um Cylon. E a música também é bonita.

    Achei muito bizarra mas interessante aquela ideia do casamento em grupo. Sem dúvida que Clarice é muito misteriosa.

    Gostei bastante da técnica de irem alternando o corpo da Zoe, com o do Cylon dentro do qual ela está.

    E também gostei da maneira como abordaram o drama da família Greystone. Como a mãe, Amanda, não sabia nada da vida da filha.

    A única coisa que achei mais descabida e menos plausível foi ela ir berrar para a frente de toda a gente que a filha era uma terrorista, e que tinha estado envolvida no atentado! Que espécie de mãe diz aquilo assim?
    Eu percebo que a senhora estivesse abalada, e se sentisse culpada e deprimida… mas apregoar aos sete ventos que a filha tinha sido responsável pela morte de tantas pessoas? Não me convenceu.

    Syrin, boa review. E não te preocupes com o tamannho! Nós lemos tudo! :)

    :4:

    • syrin 05/02/2010 às 21:56 #

      A única coisa que achei mais descabida e menos plausível foi ela ir berrar para a frente de toda a gente que a filha era uma terrorista, e que tinha estado envolvida no atentado! Que espécie de mãe diz aquilo assim?

      Pois eu até compreendo – a Amanda passou por muito nos últimos tempos: a última conversa que teve com a filha foi uma discussão, deu-lhe uma estalada, depois descobriu que a filha ia fugir através do email que a polícia interceptou, depois descobre que a filha tem um namorado e que estava envolvida num culto com terroristas assassinos. Isso, junto com a dor da perda da única filha deu-lhe naturalmente a volta à cabeça. Aquele momento no pódio foi um momento de quebra, de fraqueza, de desespero, por isso não o acho estranho. Acho-o perfeitamente natural.

      O problema vai ser quando se aperceber do mal que fez. Isso ainda vai tornar a sua dor pior.

      • Ramos 06/02/2010 às 20:33 #

        Isto é muito subjectivo. Compreendo que compreendas… mas mesmo assim acho uma cena muito forçada.

        Se a Amanda estava tão triste pelo facto da filha ter morrido, por não ter passado mais tempo com ela, nem a ter conhecido… Não consigo perceber como foi capaz de admitir ao mundo que ela era uma terrorista.
        Por muito que necessitasse de dasabafar, obviamente que teria noção que uma revalação destas ia “manchar” a memória da Zoe. E que todos se passariam a referir a ela como uma terrorista/fanática religiosa responsável pela morte de muitos inocentes.
        Ainda por cima diz isto no memorial dedicado às pessoas que – supostamente – morreram por culpa dela?
        A sério que não me convence.

        But hey :whocares:

  7. Miss Poirot 07/02/2010 às 14:12 #

    Estou a gostar, mas também é só o 2 episódio, acho que estou numa fase que a qualquer momento penso que vai entra o Saul Tigh pré-adolescente com uma palazita pequenina!!!
    E a Starbuck bebe a dizer as primeiras palavras como por exemplo frack, ou pedir um shot!!!

    Estou a brincar!!!! :hihih:

    Syrin podes escrever uma pequena bíblia em cada episódio que lê-se tudo até ao fim.

    • syrin 07/02/2010 às 15:00 #

      :D
      Eu penso que não iremos ter nenhuns vestígios dessas personagens mas hey, quem sabe… ;D

      (e ou eu me ponho a pau ou, mais texto menos texto, o ZB despede-me!)

  8. Bubbles 07/02/2010 às 17:14 #

    Ate agora estou a gostar bastante dos episodios. De tal modo que me inspirou para ver BSG – a miniserie ja esta vista, estou a em fila de espera da biblioteca para a primeira temporada =)

    Adorei forma como fazem a passagem humano / cylon, e bastante arrepiante pensar numa personalidade presa num corpo de robot.

    :4:

    E óptima review :cool7:

  9. carolinafs 18/04/2010 às 17:44 #

    Gostei! Gostei do genérico, gostei das mudanças miuda-cylon, gostei do desempenho do eric stoltz e dos dilemas tão humanos que já em BSG conseguiam transmitir.

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