[SPOILERS] Abracadabra! Era quase com um ar reverente que eu assistia, na minha infância, aos programas de magia, numa TV minúscula a preto e branco. Ficava ali, especado, vendo homens de porte altivo, vestindo de forma imaculada e trajando uma capa garbosa, a serrarem donzelas incautas ao meio, a fazerem aparecer do nada coelhos brancos ou pombas que esvoaçavam assustadas ou ainda testando a ténue linha que separa a vida da morte, em truques arrojados. A porta de entrada para esse reino mágico, onde tudo era possível e os limites pareciam não existir era sempre aberta por essas letras de encanto. Abracadabra!
Mas testar os limites da realidade nem sempre tem o final desejado. A vítima da semana, Zalman Drake (Jeff Hephner), é encontrada sem vida, mergulhado num tanque de água, onde os seus truques “à Houdini” não funcionaram. Aparentemente, atentando contra a própria vida, como parece atestar um bilhete escrito pelo próprio, diligentemente colocado junto do corpo. A má situação financeira, aliada à vergonha de perder um negócio que se encontrava ramificado na história genealógica da família, levam o mágico ao suicídio. Mas será isso verdade?
A tese de suicido é abalada pela forte convicção contrária da assistente do mágico, que afirma que as dificuldades financeiras pareciam estar regularizadas. Lançados na pista de um mais que previsível assassinato, a equipa de detectives rapidamente encontra o primeiro suspeito. Jerome Aspenall (Lenny Schmidt), que depois de ameaças à integridade física do mágico, lhe tinha movido um processo em tribunal. Considerado improcedente, precisamente no dia da morte de Drake. Jerome culpava o mágico pelo seu despedimento e divórcio, depois de este ter desvendado publicamente o adultério. Mas Jerome, mesmo afundado num mar de auto-comiseração, tem um lampejo de sorte. Um álibi. Quem disse que beber até cair, num bar sórdido, não traz benefícios futuros?
Suspeito nº 2. Charles Russel (Chadwick Boseman), cujas impressões digitais se encontravam disseminadas na nota de suicídio. Charles não pertence ao clube de fãs de Drake. Este, pertencente ao clube/sindicato dos mágicos, tinha banido Charles, devido a condutas levianas e negligentes, na apresentação dos seus espectáculos. Vivendo no mundo do faz-de-conta, com espelhos e fumos, nem tudo o que parece, é. Como, por exemplo, o bilhete de suicídio, que não passa, afinal, de uma factura por serviços ilegais prestados. Drake tinha recorrido aos serviços do exilado Charles, solicitando uma quantidade de explosivos assinalável. Inventor de truques novos, criativo numa profissão exigente, Drake fornecia serviços exclusivos a outro mágico famoso. Tobias Strange (Gilles Marini), uma estrela em ascensão, é igualmente um beco sem saída. Revela ter sido trocado por outro mágico, a quem Drake forneceria no futuro os seus serviços. Dúvida legítima, neste ponto. Que raio de truque necessitaria de tamanha quantidade de explosivos? Tobias Strange, não fornecendo a resposta, aponta pelo menos um caminho. O da oficina de Drake. O espaço, mais do que uma arrecadação, funciona quase como um museu, datando a evolução da magia pelo tempo. E onde estava guardado “the best trick ever”, nas palavras de Rick Castle (Nathan Fillion). Zalman Drake, aparecendo do nada, ironizando com o conceito mundano da vida/morte, numa espécie de derradeiro truque. Mas este Drake apenas tem a aparência e o apelido similar ao de Zalman. Edmund Drake (Jeff Hephner), irmão gémeo da vítima.
Num nunca mais acabar de voltas e reviravoltas, eis os acontecimentos que levaram ao desfecho fatídico, contrariando sempre as inventivas e criativas alternativas de Rick (se bem que Drake ter sido morto por um coelho relutante em sair da cartola não fosse má ideia, pese o nonsense):
Thaddeus Magnus (Adrian Sparks), dissidente que gosta de proferir palavras contra o governo e amigo, nas horas vagas, de Drake, cria um braço mecânico, capaz de detonar remotamente um dispositivo, para este usar no seu derradeiro e excitante truque. Um assassinato. O alvo: um filantropo bilionário, Christian Dahl (Brett Cullen), morto quando tentava bater um recorde de travessia transatlântica, de avião. Disfarçado de empregado que entrega o buffet e apoiado no génio criativo das suas criações, Drake obtêm o assassinato perfeito. Sem testemunhas, sem corpo (o avião explode em pleno oceano) e sem motivo. Por 500.000 dólares, que permitiriam a sua recuperação financeira, o mágico renega os seus ideais. Mas sofre o mesmo destino do seu alvo, impedindo-o de ter algum rebate de consciência. Para a conclusão, falta descobrir quem lucraria com o desaparecimento de Dahl. Não é uma resposta difícil. O próprio Dahl, prestes a ser indiciado por fraude gigantesca, que forja a morte como forma de escapar às garras da justiça.
O Melhor: O romance – inesperado – entre Esposito (Jon Huertas) e a médica legista, Lanie (Tamala Jones). Inócuo para a trama, claro, mas permitindo que, perante um “nunca durma com alguém com quem você trabalhe”, proferido por Rick após uma discussão com a sua ex-mulher, Esposito tenha ficado com um divertido ar de miúdo apanhado com a boca na botija. E foi assim ao longo de todo o episódio, com qualquer conversa casual a ser levada, por um apavorado detective, para o sentido que temia.
E, claro, Rick com uns óculos comprados anteriormente na loja de Drake, com visão raio-x, olhando para Kate (Stana Katic):
- “Posso ver-te nua”, diz, com ar cândido.
- “Sério?”, questiona Kate, sobrancelhas arqueadas e ironia no modo “on”. “Gostaste do piercing que tenho no umbigo?”.
O Pior: A série é divertida e entretém. Mas já se sabe que o seu forte não é a dedução policial. Algumas investigações conseguem ser confrangedoramente más. A equipa, muitas vezes, parece funcionar na base dos palpites, como se o dote da adivinhação fosse um requisito para se empunhar um distintivo. Como, por exemplo, na assumpção de que a esposa de Dahl tinha sido a perpetradora do crime, apenas por ter um caso extra-conjugal. Bastaria uma pequena pesquisa, e ficariam a saber, antes do interrogatório da suspeita, que a fortuna do marido tinha sido congelada, evitando a humilhação da interrogada os elucidar, nesse aspecto.
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Eu adoro quando os casos entram em algum mundo mais diferente. O dos mágicos não foi diferente; é realmente uma ideia brilhante contratar um mágico pra te ajudar a escapar por assassinato.
Essa questão do “realismo”, admito que nunca me incomodu em Castle. Alguns errinhos no caminho, como o que você apontou, mas eu sempre digo; eu não assisto esse tipo de série atrás do caso, quando ele é bom, é um bônus, mas o que eu gosto mesmo são dos personagens. Se bem que os errinhos estão meio frequentes demais.
Também digo que desculpo algumas coisas no Castle porque para mim, é mais um guilty pleasure.
Eu gostei bastante deste, principalmente a Lanie e o Esposito tentarem encobrir o seu caso.