[SPOILERS] “It will not get any easier”. Palavras sábias, estas de Jon (Kit Harrington) num episódio onde muito se procurou revelar e um vasto terreno se começou a preparar.
Se há elemento decisivo que nos faça apegar a uma história, seja ela qual for, são as personagens. Sem personagens de nota, que nos toquem profundamente – para bem ou para mal – não interessa ter a melhor história do mundo, pois esta nunca nos irá conseguir convencer. Isso não significa, no entanto, que uma história fique em segundo plano em relação às personagens: não, o que se quer é uma aliança perfeita entre as duas, de forma a que ambas se consigam complementar. De certa forma, “A Game of Thrones”, o livro, conseguiu fazê-lo. Se, de início, é a história que domina e cativa, lentamente as personagens vão-se sobrepondo, ajudadas pelos diversos pontos de vista que nos permitem ter uma visão diferente do que se está a passar, e fazendo-nos compreender melhor os eventos que se estão a passar à sua volta. Com um elenco muito extenso desde o primeiro momento, a construção da história, com todas as suas revelações e as recordações de eventos passados, é feita lentamente, permitindo-nos um apego maior não só a quem nos conta estas mesmas recordações, mas também despertando cada vez mais o nosso interesse pela forma como o que se passou no passado poderá vir a afectar o presente e o futuro.
Quando se passa para a televisão, no entanto, tudo muda, especialmente quando se tem uma gigantesca mitologia para desenvolver e pouco tempo para o fazer. É preciso arranjar alternativas diferentes para contar a história, para despejar a informação e fazer avançar a trama mas, ao mesmo tempo, não deixar para trás as personagens com que os espectadores criaram empatia, as personagens que os façam regressar, na próxima semana, para mais. É isso que se tem tentado fazer nestes episódios iniciais de “Game of Thrones“, da melhor ou pior maneira, e que neste “Cripples, bastard, and broken things” se tornou mais evidente.
Winterfell
Isolada de tudo e de todos, a estadia em Winterfell é pequena, mas interessante. Pouco é dito, pouco é explicado, mas as poucas cenas mostradas deixam a sensação de que tudo o que por ali se passou voltará a ser relevante, mais tarde ou mais cedo. O problema, no entanto, é exactamente essa diferença entre o mais tarde ou mais cedo e a forma como tudo nos é apresentado. Se, no caso do sonho de Bran (Isaac Hempstead-Wright), com o misterioso corvo dos três olhos, e da breve mas importante visita de Tyrion (Peter Dinklage), que arranja forma de Bran voltar a ter alguma independência, tudo parece fluir mais ou menos bem, já a conversa deste último com Theon Greyjoy (Alfie Allen), sobre o passado da sua família e da sua casa, da ligação aos Starks e da revelação sobre como Theon acabou a servir Ned Stark no seu castelo, parece um bocado enfiada à pressão e, tendo em conta a pouca relevância para a trama principal da temporada, desnecessária. Todos sabemos que alguns ajustes são necessários quando se muda de media, mas daí a complicar desnecessariamente uma história já de si bastante complexa, é algo estranho.
Vaes Dothrak
O final do longo périplo de Daenerys (Emilia Clarke) e da sua nova família a caminho dos territórios dos Dothraki, que tem ficado um pouco aquém do esperado, mais uma vez pouco ou nada de interessante apresentou, tirando um banho especial com que Viserys (Harry Lloyd) se presenteou, uma descrição do trono de ferro por que tantos lutam em Westeros, e um interessante “The next time you raise a hand to me, will be the last time you have hands”, certamente que há muito esperado mas infelizmente também surgido algo à pressão. Que Viserys precisava de alguém que o pusesse no sítio, já nós sabíamos, mas que a evolução de Dany, de menina medrosa a Khaleesi decidida, tem sido algo difícil de tragar, é notório e mostra como se calhar algum tempo mais dedicado às personagens teria sido bem aproveitado.
King’s Landing
Se a falta de eventos foi algo que pautou as duas localizações anteriores, o excesso de eventos e informações reveladas foi o que acabou por tornar esta passagem por King’s Landing demasiado complexa. As conversas da Sonsa (Sophie Turner) com a Septa pouco ou nada trazem de novo à história, lançando apenas algumas considerações sobre o poder (ou falta dele) das mulheres em Westeros, tema que é reflectido na conversa de Arya (Maisie Williams) com o pai, e que se também não foi importante para a história, pelo menos permitiu-nos ver mais uma excelente cena desta jovem actriz com o veterano Sean Bean, e provar como, por vezes, ainda é possível fazer castings perfeitos para um papéis ambiciosos.
Mais importante do que as desilusões das jovens Stark pela vida na capital dos Sete Reinos é, no entanto, o mistério da morte de Jon Arryn, que Ned procura desvendar. Com a ajuda de Grand Maester Pycelle (Julian Glover), Ned tem acesso ao livro que Jon Arryn requisitou antes de morrer, e às palavras que este mais repetiu no leito da morte: “The seed is strong”, a semente é forte, expressão que parece estranha de início, mas que rapidamente, e com a ajuda de Littlefinger (Aiden Gillen), sempre ele, acaba por indicar o caminho até Gendry (Joe Dempsey), bastardo do rei. A importância disso no contexto desta história ainda estará por ver, mas muitos terão já certamente adivinhado o que as palavras de Jon Arryn significam e qual a sua importância no assassinato (se é que foi, de facto, um assassinato) da antiga mão do rei. Rodeado de inimigos por todos os lados e tendo à cabeça Cersei Lannister (Lena Headey), que não hesita em deixar claras as suas intenções relativamente aos inimigos, a frase de Littlefinger ecoa muito depois de terem sido proferida, e deixa claro que este é um conselho que deverá ser tido em conta na capital. “Distrusting me was the wisest thing you’ve done since you climbed off your horse”, a nova versão do “Trust no one”.
Mas porque nem só de ameaças se faz a vida na capital do reino, há também lugar a momentos de festa e de rejúbilo. O torneio em honra da nova Mão do rei, Ned Stark, começa em força, trazendo consigo não só mais violência e batalhas nas ruas, mas também muito sangue, fortuito ou planeado. Com a investigação sobre os últimos dias de vida de Jon Arryn parada devido a um jovem cavaleiro, antigo pagem do morto, que se recusa a falar com alguém que não esteja ao seu nível, aguarda-se então pelo final da Justa de forma a esclarecer a questão, mas com a lança traiçoeira de The Mountain (Conan Stevens), irmão mais velho do Hound (Rory Mccan) e duplamente mais violento, como descobrimos na história que Littlefinger conta a Sansa, todas as expectativas de desvanecem: Ser Hugh of the Vale cai morto no chão, e com ele os últimos segredos de Jon Arryn. Se o torneio foi menos impressionante do que o esperado, especialmente a nível de cenário, deixando adivinhar que neste ponto se apostou menos em CGI que tornasse o espectáculo mais grandioso, já as consequências do mesmo não podiam deixar de ter o impacto desejado, arrastando a questão da morte de Jon Arryn por mais algum tempo.
Muralha
Se grande problema de King’s Landing foi o excesso de história, já na Muralha tivemos o contrário, optando-se por desenvolver um pouco mais as personagens em detrimento de avançar a história. Nas terras geladas do norte, refugo de todos aqueles que procuram um lar, temos chegadas, batalhas e confissões, temos Jon a tentar encontrar o seu caminho ao mesmo tempo que ajuda os que lhe estão próximos, e até mesmo aqueles que todos os outros desprezam, como é o caso do recém-chegado Samwell Tarly (John Bradley-West). “There was no place for him in the world, so he’s come here”. Nos comentários à crítica ao episódio três, referia-se que não estava clara a razão porque Jon abandonou Winterfell e se virou para a Muralha, para a Night’s Watch. Neste episódio voltou-se a abordar a questão, percebendo-se que este é um local não só para criminosos ou bastardos, mas também para aqueles que não têm um lar, que são abandonados sem dó nem piedade por quem os devia defender. Numa sociedade medieval, e como também foi referido por Cersei na sua conversa com Ned, os filhos mais velhos ficam com os títulos e são educados para liderar, enquanto que os mais novos são ensinados a seguir e a lutar. No caso de Jon, sendo filho bastardo, sem qualquer hipótese de direitos sobre as posses da Casa Stark, a única hipótese que tinha era ir para longe de tudo, abandonar a casa e a família que sempre conheceu, e constituir uma nova. A Night’s Watch pode, à primeira vista, não ser a família ideal, mas devido aos receios de Jon quanto a passar a sua signa de bastardo a outra criança indefesa, acabam por ser a melhor opção, e nem mesmo as advertências de Ser Alliser Thorne (Derek Halligan), ou a desconfiança dos outros recrutas, que parece estar a diminuir com o passar do tempo, especialmente devido à ajuda imprescindível de Ghost, conseguirão, o conseguirão estragar.
A caminho de Winterfell
A família, sempre a família, é um dos elementos essenciais desta história, aquilo porque as personagens lutam, sofrem, morrem. E a família é, para Catelyn (Michelle Fairley), aquilo que está acima de tudo. Já o tínhamos visto na forma como defendeu Bran do seu atacante, já o tínhamos visto na determinação com que se pôs a caminho de King’s Landing para avisar o marido das suspeitas que tinha, vemo-lo agora, mais uma vez, na forma como não hesita em chamar a si os conhecidos da Casa Tully, a que pertencia antes de casar, e de pedir a imediata prisão de Tyrion, com quem teve o infortúnio de se encontrar a meio do caminho. Se esta cena pareceu algo meio saída do nada, não é de estranhar: ao apressarem o passo da história para caber nos meros dez episódios que foram concedidos à primeira temporada, alguns esclarecimentos ficaram de fora, e as duas viagens que estavam a decorrer – Tyrion, da Muralha para King’s Landing, e Catelyn, no sentido contrário, a caminho de Winterfell – acabaram por ser vítimas de cortes infelizes. Assim, uma cena que se esperava ter bastante impacto – a apreensão do suposto responsável pelo ataque a Bran – ficou algo perdida no final do episódio, quase como se de um epílogo se tratasse. Mas porque muito ainda está para vir nesta história, aguardemos pelos próximos desenvolvimentos para perceber qual o destino de todos os envolvidos.
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Isto não e suposto ser o episódio 4 em vez do 5? :violin:
Já foi corrigido.
;D
Boas.
Tenho visto a série, da qual gosto bastante, e lido as “reviews” religiosamente. E este é o ponto de partida para dizer que me tenho inibido de fazer comentários à mesma porque não li os livros…queria ter lido os livros antes de começar a ver “Game of Thrones” mas a curiosidade era tanta que não resisti.
Agora, em parte, e indo de encontro (e não ao encontro) ao “conselho” da Syrin, arrependo-me de não o ter feito…quando ler os livros, que tenciono ler, como ela aconselha, não vou ter espaço algum para imaginar o que quer que seja, porque a minha cabeça estará povoada por imagens/memórias do que a série me dá/deu/dará a conhecer…e isso de ter a imaginação tolhida, aborrece-me.
A Syrin tem levantado a questão, aos espectadores que não leram os livros, relativa ao perfeito entendimento de relações/personagens/geografias da série/livro…e por mim falo, mas acho que a série é bastante fácil de digerir…não me tem criado quaisquer confusões, apenas há alguma falta de informação relativamente ao passado/referências, mas isso é natural…e não me incomoda.
Penso que os livros se devem tornar mais confusos nesse sentido, precisamente por não haver a referência visual…na série, mesmo que não te lembres dos nomes, consegues perfeitamente relacionar as personagens às geografias/espaços/situações/laços familiares. Aliás, só tenho dúvidas quando leio as reviews… :wink1: De vez em quando lá tenho de ir pesquisar quem é determinada personagem/actor no decorrer da leitura. De resto, gosto da série e nada me incomoda o ritmo da mesma…pelo contrário, acho mais prazenteiro…só me chateia, por vezes, não ter a referência aos livros, por não os ter lido…mas pronto, nada a fazer relativamente a isso.
Quanto às reviews/posdcast…percebe-se bem que esta é a tua zona de conforto. Excelente capacidade de comunicar.
Penso que os livros se devem tornar mais confusos nesse sentido, precisamente por não haver a referência visual…na série, mesmo que não te lembres dos nomes, consegues perfeitamente relacionar as personagens às geografias/espaços/situações/laços familiares.
Sim, exacto, isso aconteceu-me frequentemente, especialmente com as personagens secundárias. Esta, por exemplo, constantemente a confundir o Jory Cassel (o homem do Ned que teve uma cena com o Jaime neste episódo) com o tio, o Ser Rodrik Cassel (o gajo das barbas brancas que acompanhou a Catelyn até King’s Landing).
E este foi só um exemplo, que isso aconteceu-me frequentemente.
O melhor do ep: GHOST
Neste episódio tivemos direito ao Ghost, ao Summer e ao Grey Wind! (mesmo que o Grey Wind não tivesse destaque nenhum)
Para mim, as histórias do Jon e da Daenerys são as que mais me têm chamado a atenção. Estes dois últimos episódios foram fracos em termos de desenvolvimento das mesmas, mas continuam a ser as que mais me agradam. Em King’s Landing, a trama parece-me mais complicada, os vários elementos ainda estão a ser apresentados e dispostos devidamente, e talvez por isso toda a intriga da capital não me tenha ainda conseguido fascinar.
Arrepiante, a história do Hound…
:3: