[SEM SPOILERS] Desespero, angústia e traição. Sodomia, terror psicológico e tudo o demais imaginável a que um ser humano pode submeter outro. Morte, de todo o género e sempre ao virar da esquina. Se há série em que tudo pode acontecer e onde nenhum dos personagens está a salvo é em “Oz”, aquela que foi a primeira série produzida pela HBO e que claramente não conta uma história para todos os gostos e feitios. A violência é extrema, a mais extrema que alguma vez me lembro de ter visto em televisão, a nudez é presença assídua, demasiado assídua, o choque é o objectivo, e aquilo que inicialmente joga a favor da série mas que a determinada altura acaba por ser talvez a sua maior fraqueza.
Oz, diminutivo para Oswald State Correctional Facility (ou Oswald State Penitentiary), é como é conhecida uma prisão de máxima segurança (de nível 4) norte-americana. Ali foi erguida a “Emerald City” (Em City), uma experimental divisão da prisão que se assenta num forte ambiente de controlo e na esperança da reabilitação dos prisioneiros, reclusos esses das mais variadas etnias e grupos sociais tais como os ítalo-americanos (sempre conotados com a máfia, claro), os afro-americanos, os latinos, os irlandeses, os muçulmanos, os cristãos, os motoqueiros, os arianos, os homossexuais e outros mais. Claro que a intenção por detrás da Em City se esvanece por entre toda esta miscelânea de culturas, valores, ideais, modos de vida e egos, e os esforços dos responsáveis pela prisão acabam por se tornar, sucessivamente, tentativas em vão.
Criada por Tom Fontana (“St. Elsewhere” e “Homicide: Life on the Street”), que também tem crédito na escrita da totalidade dos episódios da série (56, concretamente), “Oz” está repleta de actores que pelos dias de hoje qualquer um aficionado por séries facilmente reconhece. Desde Christopher Meloni (“Law & Order: SVU) a Adewale Akinnuoye-Agbaje (“Lost”) e Harold Perrineau (“Lost”), passando por Eamonn Walker (“Kings”), Terry Kinney (“The Mentalist”), J.K. Simmons (“The Closer”), Zeljko Ivanek (“The Event”), Luke Perry (“Beverly Hills 90210”) e Dean Winters (“30 Rock”), e terminando com Kirk Acevedo (“Fringe”), Erik King (“Dexter”), David Zayas (“Dexter”), Lauren Vélez (“Dexter”) e Edie Falco (“Nurse Jackie”), aos quais se juntam Ernie Hudson (“The Secret Life of the American Teenager”), Rita Moreno (“Happily Divorced”), Lee Tergesen (“Generation Kill”), B.D. Wong (“Law & Order: SVU) e muitos, muitos outros.
Existem várias particularidades na série que a distinguem da maioria. E não me refiro em concreto ao que menciono no primeiro parágrafo deste texto, mas sim no que toca à própria estrutura narrativa que a mesma apresenta. Primeiro que tudo, o facto de que claramente se aprecia melhor vendo os episódios de forma consecutiva do que se tivesse sido vista semanalmente e com paragens de meses entre temporadas. É verdade que este argumento se pode usar para muitas séries em formato serial, mas em “Oz” essa necessidade é ainda maior uma vez que muitos dos arcos nem sempre são explorados consecutivamente, com a história a regressar a determinada “ponta solta” quando menos se espera, podendo ter decorrido alguns episódios ou uma dúzia deles. Depois, o facto de existir uma espécie de narrador da história, que se dirige à audiência em vários segmentos ao longo dos episódios, o que transmite uma maior sensação de proximidade e envolvência à história. E, por fim, o conflito de sentimentos que gera. É difícil explicar a razão por que se gosta e se continua investido ao longo de 56 episódios na vida de homens que indubitavelmente são parte integral, e fulcral, da podridão que existe na sociedade contemporânea. Mas as personagens de “Oz” são tão multidimensionais, conseguem ter tantas facetas e camadas, que é difícil não encontrar uma delas que nos leve a criar empatia mesmo sabendo de antemão que aquelas são más pessoas. Acho que a série se esforça por mostrar que todos nós temos duas forças interiores que nos impelem ao longo da vida, uma negativa e outra positiva, sendo a única coisa que nos diferencia é que alguns se deixam dominar pela negativa enquanto outros conseguem recalcá-la. E, por isso mesmo, é possível reconhecer naqueles homens a luta constante que travam para não serem como a vida quis que eles fossem e validar o seu esforço por ao menos tentarem.
Bem escrita, com diálogos bastante apurados ao estilo daquilo que hoje se tornou hábito ver em qualquer série da HBO, e interpretações irrepreensíveis, “Oz” apenas peca por se deixar cair facilmente em exageros e de introduzir algumas linhas de argumento absurdas, especialmente no decorrer das temporadas que compõem a segunda metade da série. Com a violência a tomar demasiado um papel central na série, onde o único interesse é claramente procurar chocar e nada mais, a história acaba por sair fragilizada e perde-se aqui uma excelente oportunidade de se ter criado uma das melhores séries de sempre. Ainda assim, não estando no mesmo nível de outras séries que se tornaram referência na HBO, “Oz” é uma montanha-russa (ou melhor, uma mistura de montanha-russa com casa do terror) em que vale a pena viajar. Mas atenção, cuidado que esta é mesmo daquelas que pode deixar alguns mais agoniados…




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Vi alguns episódios quando passava na Sic Radical e gostava do que via. Mas numa coisa tens razão, existem demasiadas pontas soltas na série… Isso nota-se imenso. Mas uma coisa que gostava, dos episódios que vi, era que cada personagem tinha sempre o seu destaque! Espero, ansiosamente, que a Sic Radical volte a passar a série, ahaha!
Boa crítica.
Quando vês a série na globalidade não há muitas pontas soltas, porque eles acabam por regressar a determinados assuntos que deixaram para trás há algum tempo, mas claro que há sempre algumas que caem no esquecimento.
A mim chateou-me mais, por exemplo (vou colocar como spoiler pois não viste tudo, por isso lê por tua conta e risco)…
Até fiquei com vontade de ver… Era capaz de fazer uma maratona e ver :run12:
Lembro-me de ter visto um ou dois episodios (ás escondidas dos meus pais) quando passava na Sic Radical quando devia ter +/- 12 anos
Como é obvio não me lembro de nada tirando que tem um gajo em cadeira de rodas e muita violencia mas gostava de ver a serie toda.
Houve uma fase em que me senti tentado em ver a série, mas depois o interesse desapareceu!
A ver se é desta!
Nunca vi a série mas talvez vá dar uma espreitadela
Mais um grande produto da HBO. E mais uma das series que ficou a meio na edição portuguesa de DVD.
Estava com medo de não haver legendas mas afinal ainda se arranja qualquer coisa…
Qual e a melhor temp? acabei agora a 3 e tem sido excelente mas para mim tem o sindrome lost de matar boas personagens
Para mim, é a primeira. A partir da quarta, a qualidade decai um pouco.