[SPOILERS] Eu este ano fui um privilegiado. Depois de “Homeland”, “Boss” e “Prime Suspect”, os melhores pilotos da temporada para mim, tenho a oportunidade de escrever sobre aquela que preenche o lote de melhores estreias do ano…ou pensava eu…
A história de base leva-nos pela epopeia que foi construir a linha ferroviária transatlântica, que liga o Este o Oeste dos Estados Unidos em meados do séc. XVIII. A guerra civil que dividiu o Norte e o Sul acabou, o Presidente foi assassinado, e o país precisa de sarar e curar as feridas abertas. Feridas que irão ser fechadas e cosidas, espera-se, com esta nova linha.
“Hell on Wheels” bem poderia ser referência aos comboios, essas bestas que se alimentam do fogo do carvão, mas é o nome da cidade móvel, o inferno nómada sobre rodas que alberga os construtores da linha ao longo do seu trajecto.
Personagens:
# Cullen Bohannon (Anson Mount) é um pistoleiro (mais perto de George Clooney do que Clint Eastwood) e com todos os maneirismos clichés dos cowboys. Um sulista que tinha um campo de escravos e agora vai ser obrigado a orientá-los novamente. Passado que não cai bem no seio dos seus novos empregados. Mas esta personagem é-nos apresentada com tamanha noção de justiça e honra que não surpreende quando descobrimos que os libertou ainda antes da guerra, e pagava um ordenado como trabalhadores independentes. No final do episódio confirma-se que Cullen anda a matar todos os soldados do Norte responsáveis pela morte da sua mulher e atrocidades cometidas em nome da guerra. Só que a história não é bem como o nosso cowboy imaginava e falta mais um responsável morrer.
# Thomas “Doc” Durant (Colm Meaney) é um investidor no consórcio que irá construir a linha ferroviária. É bom ver que os subornos e artimanhas não são um fenómeno moderno porque este senhor não é para brincadeiras. Sempre me ensinaram que a distância mais curta entre dois pontos é uma linha recta, mas os matemáticos não contaram com o dinheiro quando formularam essa hipótese. Se o governo paga a cada milha construída, porque não fazer uma linha aos S? Espremendo ao máximo a vaca com leite sem limite, para benefício próprio.
# Lilly (a belíssima Dominique McElligott) é casada com Robert Bell (Robert Moloney), o engenheiro geográfico responsável pela planeamento avançado da linha. Um homem doente que apoia-se na mulher para aguentar o longo e perigoso caminho. Após entrar em território inimigo dos índios Cherokee, determinados a acabar com esse mal que lhe vai roubar as terras, Bell é morto e Lilly é obrigada a arranjar forças para matar o agressor (cena de violência “sem espinhas”). Segue-se mais uma história de uma mulher que tenta vencer num mundo de homens.
# Elam Ferguson (não percebo porque é que o rapper quis aparecer nos créditos como Common, até50 Cent aparece nos seus filmes como Curtis “50 Cent” Jackson, mas ele é que sabe…) é um ex-escravo demasiado marcado por anos de opressão, que a emancipação pós-guerra não parece curar. É difícil dizer quem tem mais ódio por quem. Adivinho que vai descobrir o passado de Cullen e perceber que ele não é igual aos outros, tornando-se, quem sabe, amigos.
# Reverendo Cole (Tom Noonan) aparenta ser um reverendo diferente. Não ficou claro, mas deverá acompanhar o resto da cidade (há uma referencia à construção de uma igreja, mas isso implicaria ele ficar para trás). Pelo baptismo que realiza a um índio (Eddie Spears) percebe-se que pretende a harmonia entre os dois povos.
# Temos ainda Mickey (Phil Burke) e Sean (Ben Esler) McGinnes, dois irlandeses que não sabemos de que modo vão encaixar na história e o “chefe” Daniel Johnson (Ted Levine) que infelizmente morre no final do episódio, é um bom actor e daria ainda mais credito ao resto da temporada.
O episódio acaba um excelente discurso de “Doc”, que resume o episódio e o que a série pretende contar.
“É um vilão que quer? Representarei o papel. Afinal, o que é um drama sem um vilão? O que é a construção desta linha senão um drama? Este negócio não é para fracos, é um caso difícil e brutal que premia o leão pela sua ferocidade. E a zebra? A zebra é comida como era suposto ser. Não se iluda! Sangue será derramado, vidas serão perdidas, fortunas serão feitas, homens serão arruinados…Haverá traição e escândalo. Uma traição de proporções épicas. Mas o leão prevalecerá.
O segredo que conheço é que toda a história é conduzida pelo leão. Arrastamos a zebra enquanto se esperneia e reza, manchamos a terra com seu sangue barato. A história não é muito afectuosa, mas ela é escrita pela zebra, para a zebra.
E em 100 anos, quando esta ferrovia atravessar o continente e a América se tornar a maior potência que o mundo já viu, serei lembrado como um covarde, malfeitor, que agiu por ganância apenas em favor de ganhos pessoais. Tudo verdade. Tudo!
Mas lembre-se, sem mim e homens como eu, a sua gloriosa ferrovia nunca teria sido construída.”
“Hell on Wheels” é teve um bom piloto, não me interpretem mal. Teve a segunda melhor estreia a nível de audiências na AMC (só ultrapassado por “The Walking Dead”), tem tudo para se tornar um série consistente e agradável de acompanhar. A fotografia e direcção são mais do que boas, tem actores de qualidade (com excepção do protagonista que não me convenceu) e é bem escrita. Mas falta-lhe algo que a torne “lendária”! Vamos ver como serão os próximos 9 episódios da temporada, talvez seja só eu a compará-la com as outras grande estreias deste ano e a desvalorizar um excelente começo.
O Melhor: O personagem “Doc”, principalmente o seu discurso final. A fotografia e a realização.
O Pior: Falta o “pózinho mágico”. Fiquei com a impressão que vi o piloto de “Revenge”, versão cowboys.
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De uma forma geral subscrevo a critica efectuada, ainda é cedo para tirar conclusões, mas para “pilot” até é dos mais consistentes deste ano.
Confirmo a magnifica fotografia e direcção bem como a banda sonora.
Vai ter critica semanal? Boss também?Cumprimentos.
Infelizmente nem esta, nem Boss vão ter (pelo menos da minha parte), o tempo não me permite acompanhar mais séries…Mas podes contar com texto de balanço de temporada no final, de ambas
Obrigado pelo teu comentario!