Awake: 1×01 – Pilot (NBC)

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[SPOILERS] Desde que surgiram os primeiros detalhes sobre “Awake” que muita gente ficou de olho na série. Não só por ser da autoria de um muito promissor Kyle Killen, o criador da adorada pela crítica mas rapidamente cancelada por falta de público “Lone Star” e o argumentista de “The Beaver”, mas sobretudo pela sua premissa arrojada, onde um homem se depara a viver duas realidades distintas após um acidente de automóvel que vitima membros da sua família, sendo que numa apenas a esposa sobreviveu e na outra apenas o filho.

Chegou o primeiro trailer e as expectativas subiram exponencialmente, uma vez que deste se percebia que realmente a interessante premissa parecia ter correspondente execução, com um argumento forte, uma realização segura e um elenco de categoria liderado por um carismático Jason Isaacs. Depois surgem os críticos rendidos e as expectativas tornam-se ainda maiores. E hoje chegou finalmente o episódio e com ele também o momento de tirar as dúvidas.

O episódio não perde tempo em conduzir-nos àquilo que é o fulcral da história e expõe a sua premissa logo nos minutos iniciais. Este é um passo importante, o de dar a entender à audiência qual é exactamente a história que se pretende contar, e conseguir uma abordagem que prime pela maior simplicidade possível. Se as pessoas sentirem a necessidade de estar a fazer rewind para tentarem perceber o que é que está mesmo a acontecer, então torna-se difícil criar um ritmo narrativo saudável e rapidamente se perdem espectadores. Este piloto consegue fazê-lo com sucesso. A premissa é complicada mas bem explanada. Houve um grave acidente e desde então, Michael (Jason Isaacs), viu-se a viver em duas realidades distintas. Não sabe o que são (sonhos? limbo?) mas apenas que ele sente que ambas vidas são reais e não quer deixá-las de modo algum pois não quer perder qualquer elemento da família (já que num consegue manter a mulher viva e no outro o filho e abdicar duma realidade implicaria abdicar de um deles).

Para o ajudar a desconstruir este novo mundo em que vive, Michael conta com a ajuda de dois psiquiatras, um por cada realidade, os quais tentam convictamente “puxá-lo para o seu lado”. Uma das características mais interessantes deste episódio, e certamente da série no seu todo, é esta espécie de “batalha de psiquiatras” em que o protagonista se vê envolvido. Para ambos os terapeutas a outra realidade é apenas um sonho e ambos embarcam numa espécie de cruzada para trazer Michael de volta para a realidade deles. E a verdade é que muitos dos seus argumentos fazem sentido. Os de ambos. Não há aqui um lado certo a escolher. E talvez seja essa uma das principais mensagens da série: por muita razão que ambos os lados tenham, talvez a resposta certa não esteja numa escolha mas sim numa conjugação.

Para conseguir de certa forma atenuar a pesada premissa, é ainda introduzida na série uma componente procedural (ou procedimental, caso prefiram). O personagem principal é um detective e os casos de polícia são componente intrínseca à sua vida. Apesar de não ter a certeza porque ainda não vi qualquer declaração do próprio Killen sobre o assunto, isto parece-me claramente uma forma de tentar garantir que a série não seja descartada pelo público logo de imediato. A tendência dos últimos anos é fugir ao formato serial e muitas são as séries com conceitos mais intrincados que optam por se assentar numa componente procedural de forma a conseguirem sobreviver. “Awake” é mais uma. Isso, por si só, não tem necessariamente de ser algo mau. O que não faltam são exemplos de excelentes séries com elementos do género (“The Shield”, “Justified”) e que os sabem conjugar e explorar com os arcos da temporada de forma coerente e, especialmente, conseguem fazê-lo de forma cativante. Aqui pareceu-me mais uma distracção. O/s caso/s não foram propriamente os mais aliciantes. Salvou-se o processo para a sua resolução, que explora as potencialidades da premissa, das duas realidades, e de como há uma linha muito ténue que as separa, mas o tempo gasto nessas cenas deixaram um sentimento a tempo que nos está a ser “roubado” da parte da história que realmente interessa.

Porém, a componente procedural será a mais susceptível de dar longa vida à série. A grande dúvida, que certamente surge na mente de toda a gente e a qual é extremamente válida, prende-se com a capacidade que a premissa tem para se aguentar num formato de série. “Awake” pode estar no canal certo se conseguir audiências minimamente razoáveis. Este é o canal onde séries com audiências míseras conseguem sobreviver por várias temporadas (o que não faltam são exemplos: “Community”, “Parks and Recreation”, “30 Rock”, “Chuck”, “Parenthood”, “Harry’s Law”), mas também é o canal em que as audiências quando são pobres podem atingir níveis de calamidade (“Prime Suspect US”, “The Firm”). Tudo dependerá dos resultados que a série conseguir, da sua capacidade para captar a atenção do (pouco exigente) público norte-americano. Mas, caso tenha sucesso suficiente para subsistir, até quando a sua premissa se vai aguentar? Até quando a série conseguirá ser mais que apenas outra série policial? Até quando as visitas ao consultório dos psiquiatras serão catárticas e não apenas uma obrigação? Até quando o protagonista se vai permitir a ficar preso neste limbo?

O Melhor: A premissa em si. O argumento. Jason Isaacs. A “batalha” entre psiquiatras.
O Pior: A componente procedural, como não podia deixar de ser.
Nota: 8.8 (Muito Bom)

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4 Respostas para “Awake: 1×01 – Pilot (NBC)” Subscribe

  1. Pentacúspide 17/02/2012 às 02:40 #

    eu sou um admirador do absurdo, a premissa que descreveste fisgou-me por completo. vou acompanhar esta série.

  2. LR 17/02/2012 às 12:42 #

    Gostei bastante. O facto de estar na NBC pode salvar a série, pois as audiências vão quase de certeza ser baixas.
    Todas as partes em que ele se contactava com a mulher ou o filho foram excelentes e foi muito fácil conseguir estabelecer ligação com as personagens. Também estou muito curioso qual vai ser o rumo da série… É talvez a premissa mais difícil que eu conheço de conseguir manter durante vários episódios.

  3. Paulo 18/02/2012 às 21:44 #

    Gostei bastante da premissa da série. Como dizes, o melhor foi mesmo a “guerra entre psiquiatras”, e ambos apresentam argumentos bastante viáveis. Bem, mas a série tem um argumento bastante bom, e irei continuar a assistir.

    Ah, e excelente crítica ;)

  4. musicslave 05/03/2012 às 15:29 #

    muito bom episódio.

    concordo contigo. A premissa é um pouco pesada e talvez o lado procedual seja mesmo uma forma de aliviar isso e tambem de tentar agarrar alguma audiência.

    a premissa é muito boa. Eu acho que ele está num limbo, e que no acidente so ele sobreviveu, mas isto é pura especulação.
    as interpretações estao em bom nivel.
    a batalha entre psiquiatras é interessante e cada um com argumentos válidos.

    destaco ainda a fotografia que está em grande plano

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